quarta-feira, 24 de julho de 2013

andorinha is watching you

Porque me disseram maravilhas do teu conteúdo.
E eu sou pessoa que até preciso de umas (bastantes) dicas para melhor fotografar.
Porque uma coisa é usar sempre o modo automático. Outra é saber usar as outras funções da máquina.
Vamos a ver se te tenho nas mãos ainda antes das férias.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O GUARDA-CHUVA DO SNOOPY

13h45. Era o horário da única camioneta da tarde que nos levaria para a cidade. Era véspera de natal e foi-nos concedida uma tarde inteira pelo Porto.
O nosso avô acompanhou-nos. Apesar de idoso, ainda se aguentava bem das pernas e muito mais da cabeça. Homem do campo, era grande conhecedor das ruas e vielas daquela grande cidade, onde trabalhou durante mais de 40 anos. Eu não cabia em mim de alegria. Disse várias vezes ao meu irmão, mais novo que eu, para nunca me largar a mão (os constantes recados da mãe preocupada não me esquecia eu). E lá entramos na camioneta.
Apesar de enjoar sempre, pois as curvas que nos separavam da cidade eram mais que muitas, nunca me distraía durante este percurso, e ficava a olhar embebecida para tudo o que se passava lá fora.
15h45. Era a hora de chegada ao Porto. Lá percorremos, em passo ligeiro, as ruas que nos levariam até à baixa. Era véspera de natal, caramba, estava tudo tão bonito que eu nunca tinha visto igual. Receei perder-me de tanto olhar para cima, menina pequenina que era e facilmente o meu avô deixava de me ver. Mas não. Eu nunca me perdia. Conseguia observar o mundo sem nunca perder o caminho. Andava tanta gente na rua. Desejei que os meus pais também estivessem ali. Chegados à baixa, andamos num autêntico frenesim de entra e sai das lojas. Tinha vergonha de pedir ao meu avô o que quer que fosse. A mim mãe alertou-me para eu não pedir tudo o que visse e comprar algo que precisasse. Eu achei que precisava de um guarda-chuva e por isso decidi pedir ao meu avô. Foi o guarda-chuva mais bonito que alguma vez recebi. Era branco, pequenino, com o Snoopy desenhado em preto. E foi isso. Um guarda-chuva. Ao meu irmão já não me lembro, mas julgo que foi um jogo com personagens da Disney.
De guarda-chuva na mão, continuamos a nossa viagem pelas ruas. Por mim, estava ali sempre. E era véspera de natal, caramba, e sabem como o Porto fica lindo no natal.
19h00. Era a hora de regresso. Carregados de sonhos e lembranças na cabeça, as crianças retomavam a casa, pela mão deste avô velho, que tentou, pelo menos uma vez na vida, concretizar o sonho dos netos na véspera de natal. Na hora de jantar tentei contar à minha mãe o que tinha visto, e como tinha sido, e como era tudo aquilo.
Coloquei o guarda-chuva debaixo da árvore, onde se iria juntar, na noite de natal, a outra prenda que o Pai-Natal me iria trazer.

E fui para  cama com a certeza que tinha dentro de mim algo especial. Aquelas férias de natal estavam a ser o máximo, e o meu avô era o maior do mundo.

GOSTO...

…do cheiro dos livros. do cheiro dos lápis. das 19 horas no verão. das 16 horas no inverno. de ver o fogo na lareira. de torradas com pouca manteiga. de lençóis brancos. da cama acabada de fazer. da casa arrumada. da praia e dos pés cheios de areia na praia. do som dos grilos na aldeia. da lua. do sol. da noite, mas principalmente do fim de tarde. de acordar por mim. dos abraços dele. dos beijos dele. do lábio superior dele. da barba. dosto de cozinhas com bancada. de vasos pequenos com ervas aromáticas. gosto dos amigos e que os amigos gostem de mim. de pessoas bondosas. de pessoas corajosas. de pessoas felizes e optimistas. gosto de histórias felizes. de amores para a vida. de relações que dão certo. da cumplicidade. gosto de jardins na cidade e das flores do campo. gosto do som das cigarras. gosto do lanche no inverno e do jantar no verão. gosto de toalhas de piquenique. de bicicletas antigas. de apertos de mão firmes. de pessoas com olhar transparente. gosto do Porto. gosto das gentes do Porto. gosto das crianças. gosto de ver crianças a correr e suadas e sujas de tanto brincar. gosto de crianças felizes. gosto das gargalhadas dos outros e de dar gargalhadas. gosto de te ouvir cantar. dos teus dedos na guitarra. das músicas que sabes tocar. gosto de cadernos e blocos em branco. gosto de pensar no que vou lá escrever, mesmo quando nunca escrevo nada. gosto da viagem. gosto ainda mais de chegar a casa. gosto do teu arroz. das tuas palavras sábias. gosto de saber que gostas de mim.
Gosto da vida. Ponto.

terça-feira, 16 de julho de 2013

and lifes goes on



Andei sem conseguir escrever uma única palavra no blogue.
Hoje consegui. Ena, ena.
Mas assim de repente não me estou a conseguir lembrar de nada para vos contar.

A vida continua a correr bem, obrigada.
Continuo a calcorrear, de uma forma equilibrada e aconselhável, a estrada da vida a que chamam casamento.
Andamos perdidos em concertos algures entre sul e norte.
Temos preparado sempre com bom grado os nossos repastos.
Divertimo-nos com coisas simples e achamos sempre piada ao óbvio.

O sol teima em lembrar-nos que o verão está aí, e apesar de não termos muito tempo para ir à praia, ouvimos as gaivotas em casa. Pronto, às vezes...
Mesmo assim, imaginamos que o chão de casa tem areia, e vagueamos pela casa sempre descalços, ou, pelo menos, até o piso não arrefecer com esta descida de temperatura que se deu.

De resto, cumprimos sempre (sempre não significa chegar cedo ao trabalho) com o nosso horário e lá nos despedimos no elevador, desejando que o dia passe rápido para o voltar a ver de novo.

E dizei-me agora que isto não é mesmo um verdadeiro amor...

quarta-feira, 10 de julho de 2013

NO TEMPO DAS VACAS GORDAS, A MINHA MÃE CRIAVA OVELHAS

E eu devia ter uns 10 ou 11 anos. Às vezes era à tardinha, quando chegava da escola ou quando não tinha aulas à tarde. Mas a maior parte das vezes era ao sábado à tarde.
Ia pastar as ovelhas.
Mesmo que na altura ainda não tivesse ouvido falar do “Flautista de Hamelin”, eu imaginava, numa versão pastor e esquecendo os ratos, que as ovelhas percebiam a melodia da flauta que eu carregava e me seguiam.
E caso não saibam, apenas uma ovelha tem a corda amarrada para ser puxada. E nunca é um carneiro a ter a corda. Todas e todos seguem a ovelha da frente independentemente do sitio para onde vá.
No inicio era a minha mãe que coloca a corda. Depois eu aprendi e já fazia isso sozinha.
Levava-as para o campo, verdejante. Sabia exactamente qual era o melhor sítio para elas estarem.
E ficava ali deitada, ora a olhar o céu e imaginar imagens nas nuvens, ora a tocar o “hino da alegria” na flauta.
Na verdade, estes momentos eram mesmo uma “Ode an die Freude”, pela sua pureza, simplicidade, ausência de qualquer stress ou pressa.
Porque, apesar de achar agora que a minha vida não se coaduna com o campo, a verdade é que me transmitiu o lado bom, calmo, simples da vida.
Penso muitas vezes nestes e noutros momentos que lá vivi. E consigo ainda sentir cheiros, sensações, sons, consigo lembrar-me de todas as pessoas que lá habitam e no seu dia-a-dia.
Consigo lembrar-me da buzina do padeiro. Do som da velha Toyota que vendia mercearia. Do autofalante em dias de festa. Dos grilos nas noites de verão. Da resina dos pinheiros. Do cheiro das pinhas quando apanhava pinhões com o meu irmão. Da música que a carrinha do senhor que vendia arcas tocava, e era sempre tão pimba. Do sabor do ovo estrelado que a minha mãe nos fazia. Do cheiro a lenha queimada nas noites de inverno. Da temperatura da água da mangueira que era a nossa piscina de verão. Da voz da minha mãe quando me chamava para casa à noite, entre brincadeira como a escondidinha ou a macaca. Do cheiro dos lápis de cera que uma tia afastada que vivia em Matosinhos nos trazia, sempre que nos vinha visitar.
Tudo enquadrado. Tudo com o seu tempo para acontecer.
E gostava de acreditar que as crianças que agora lá vivem ainda têm estes momentos. Elas não sabem ainda, mas um dia vão perceber como é bom ser-se criança na rua.

Nesta altura chegamos também a cozer sapatos. Eu era pequena e não considero isso exploração infantil. Mas essa história fica para uma próxima...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A MENINA DO VESTIDO BRANCO, OU COMO SE CALHAR ATÉ POSSO CONTINUAR A ESCREVER QUALQUER COISINHA

Vestia-me com um vestido branco, imaculado, de um tecido fino e sedoso, com uns favinhos à frente torneados na cor azul.
Nos pés calçava-me umas sandálias, igualmente brancas, com um fivela elástica a apertar.
Com tudo branco, destacava-se ainda mais o meu tom de pele moreno.
Na cabeça não levava nada. Apenas o cabelo molhado, de alguém que tinha acabado de tomar banho, e uns cachos pretos como o carvão que mais pareciam um fole de acordeão quando eu corria.
Batiam as 7 badaladas da tarde no sino da capela e a minha mãe pegava em mim, colocava-me no cima da estrada de terra batida e dizia “Corre, filha, corre. Olha quem vem ali”.
E eu corria, limpa, branca, de sorriso rasgado, dentes pequeninos na boca, olhos escuros e brilhantes.
Levantava-se um ligeiro pó, pouquinho, pois mais não podia fazer uma criança tão pequenina de apenas 3 anos.
O meu pai abria os braços lá ao fundo. Para mim a distância era enorme. Agora sei que não seriam mais de 5 metros.
E eu abraçava-lhe o pescoço. A menina ficava num braço e no outro braço ele segurava um velho saco onde levava a marmita.
Levava-me para casa. Entrávamos os três. Era hora de jantar.

Eram bons os fins de tarde de verão.
Talvez seja por isso que ainda hoje sinto uma nostalgia pelos finais de tarde.
Talvez seja pela tarde que deixará de ser tarde ou a noite que ainda não é noite.
Talvez seja pela felicidade.

E continuam a ser bons os fins de tarde de verão.
Porque a felicidade, essa, teima em não desaparecer.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

E AFINAL, VOU ESCREVER SOBRE QUÊ?

Sabes que não tens qualquer jeitinho para escrever sobre política quando vês textos incrivelmente bem escritos, em blogues igualmente bons.
Sabes que não tens qualquer jeitinho para escrever sobre moda quando não vais comprar nada novo há um série de tempos e nem sabes muito bem o que se vai usar nesta estação. Nem tão pouco te pões a tirar fotos às roupas que vais experimentando nos provadores das lojas.
Sabes que não tens qualquer jeitinho para fotografia quando contemplas todos os dias verdadeiras obras de arte em modo digital, onde uma simples imagem de um café da manhã te faz apetecer querer um.
Sabes que não tens qualquer jeitinho para textos sobre culinária quando a tua incursão pelo mundo da cozinha não é nada de especial, limitando os cozinhados ao creme de legumes ou a uns doces muito de vez em quando.
Sabes que não tens qualquer jeitinho para falar sobre “vida doméstica” porque para ti a organização não precisa de ser ensinada, nem lida em livros ou blogues. És organizada e ponto.
Sabes que não tens qualquer jeitinho para escrever sobre viagens, porque quando viajas escreves dentro de ti tudo aquilo que estás a sentir e vives as cidades com um coração cheio.
Sabes que não tens qualquer jeitinho para escrever sobre dietas porque, na verdade, não fazes nenhuma.
Sabes que não tens qualquer jeitinho para escrever sobre produtos que desalmadamente compras para tudo e mais alguma coisa porque quando compras, usas e pronto.
Sabes que não tens qualquer jeitinho para escrever sobre novidades no mundo da beleza, quando as unhas de gel que colocaste te estragaram as unhas todas e o alisamento do cabelo te deixou uma alergia na cabeça.

E sim, estes são temas que os blogues sempre abordam.

Posto isto, nem sei muito bem porque tenho o blogue.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O AMÉRICO QUE NUNCA FOI À AMÉRICA

O sino da capela era sempre tocado 1 hora antes da missa começar.
Todos os sábados, à mesma hora, ouvia-se os dobres e repiques daquele sino, tocado sempre por aquelas mãos sujas, escuras, magoadas pela terra e pelos trabalhos agrícolas.
Colocava a sua melhor roupa, achava ele, e vinha abrir a porta da capela bem cedo, porque fazia questão de chegar primeiro que qualquer um.
A sua idade, cerca de 50 e alguns anos, não retratava a pessoa que era. Era vê-lo aparecer de t-shirt da Opel (oferecida pelos tios brasileiros nas suas vindas a Portugal) e umas calças de tecido, em tempos calças de fato de alguém, subidas quase até meio do peito. Nos pés, ora eram umas sapatilhas que as sobrinhas lhe compraram na feira ora uns sapatos velhos de fato (provavelmente da mesma pessoa das calças).
As marcadas rugas no rosto, ganhas pelas imensas horas passadas ao sol a trabalhar, não combinavam com os olhos brilhantes, expressivos e dóceis que tinha.
Era o primeiro a chegar e o último a ir embora. Garantia que ninguém ficava cá fora no inicio e que ninguém ficava lá dentro no fim.
Foi-lhe dada a chave da capela e isso fazia-o sentir-se responsável.

Todas as vezes que eu chegava, era feita sempre a mesma pergunta: “O Manel?”, perguntava ele, querendo saber como estava o meu pai. Lá lhe respondia que estava a trabalhar, ao que ele sempre resmungava por entre os poucos dentes que tinha um “devia era vir à missa”!
São da mesmo idade, cresceram juntos, até ao dia em que uma meningite o incapacitou de continuar a crescer como os amigos.
Mas naquela altura os tempos eram outros (já pareço a minha avó a falar) e mesmo não havendo solução para o sucedido, o Américo resistiu e continuou a crescer, fisicamente.

Há quem diga que os sinos falam.
Os sinos da minha aldeia falam, através das mãos deste homem criança.

E eu penso muitas vezes que são estas as pessoas realmente felizes, alheios ao mundo e às suas desgraças.
Porque o Américo não vê noticias. Não lê jornais. Nem sabe o que é a Internet.
Para ele, o Brasil é onde moram os tios. E provavelmente não conhece a palavra Turquia.
O Américo nem sabe que, se mudarmos uma letra no seu nome, somos levados para a terra dos sonhos e das oportunidades.

Mas o mais importante é que ele gosta do nome que lhe chamam. Américo.

terça-feira, 18 de junho de 2013

E EU CHORAVA

Quando a minha mãe ficava sem argumentos lógicos para exprimir o que sentia, depois de mais uma das minhas teorias vindas das entranhas aventureiras que possuo, soltava um leve e desgastado “ai esta rapariga, que não sei onde vai buscar estas ideias”. E eu ficava a olhar para ela, à espera de respostas, de explicações, de assertividade.
Pois nunca consegui obter respostas.

Recolhia-me no quarto, enquanto lá fora o Verão (sim, o verão a sério, que isto agora não é verão nenhum) estalava, durava, chamava por mim.
E lá fora ouvia também os emigrantes a chegaram. Aqueles meus vizinhos que nos brindavam com foguetes, músicas aos berros nos seus Audi’s, roupa "da moda", cabelos com madeixas (na altura não sabia o que isso era) e uma língua que eu sabia que não era minha e por isso tanto me fascinava. Durante 1 mês eu ouvia e não percebia. Sabia que era francês, e por isso punha-me a sonhar com França.

A minha amiga do ano inteiro esquecia-se que era minha amiga durante esse mês. Queria antes brincar com a prima francesa, menina ousada e com roupas giras.
E eu aproveitava para, durante esse tempo, acolher ao meu mais elevado grau de imaginação.
E sonhava com França e com outros países. Sonhava com o mar, com a areia nos pés e o corpo carregado de sal e cor escura como normalmente ficava quando era criança.

Por isso interrogava a minha mãe. Perguntava-lhe o que íamos fazer no verão. Mas as suas respostas assemelhavam-se sempre a ela, humilde e simples, quando me respondia que não iríamos fazer nada. Que eu tinha era de aproveitar para estudar.

Deitava-me na cama, persianas semi-fechadas (não queria dormir, mas também não era agradável tanto sol no quarto) e chorava. Não porque me faltasse qualquer coisa, não porque a minha mãe falhasse com qualquer coisa. Mas porque teimava em sonhar mais alto do que podia.