domingo, 23 de fevereiro de 2014

Os ovnis, a luz, a noite quente, a minha mãe e eu

Já foi há muito, muito tempo, por isso não consigo dizer se aconteceu no fim da primavera ou a meio do verão. Lembro-me que estava calor e vestia uma blusa cavada amarela com folhos nos ombros. Nos pés, nada. Adorava andar descalça. Tenho o recorte do jornal em casa dos meus pais, na gaveta da cómoda do sótão. Tão bem guardado quanto está esta história.

A mãe chamou-me, da varanda da cozinha. O seu indicador conduziu-me à serra que nos separa da vila onde passa o comboio. Em dias límpidos, ou depois de chuva, costumamos ouvir o som das carruagens. Chamo-lhes dias mágicos.
A luz que sobrevoava as pontas das árvores era intensa e estranha. Subiu, subiu, e continuou a subir até chegar bem alto. Depois parou, como que dizendo adeus, ou até já, ou foi um prazer, e desapareceu, foi-se, já era.
Fiquei com os olhos raiados de interrogações. A minha mãe, mulher céptica, achou a luz estranha. Só isso. Já eu, sonhadora, achei tudo aquilo especial.

No dia seguinte, no Jornal da Uma, percebi que não tínhamos sido as únicas, naquele fim de tarde quente, a ver aquela luz no céu estrelado e límpido.

Guardei na memória aquele momento e na gaveta da cómoda do sótão o recorte do JN. Nunca mais voltei a falar com a minha mãe sobre isto, talvez por medo da descrença dela sobre estes assuntos e que acabaria com esta certeza que tenho de termos visto uma nave espacial, ou especial, sei lá. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Esta história é sobre ovins, mas deixará de o ser caso me provem que eles não existem

Amanhã tenho de apresentar aqui um texto de um momento marcante da minha vida. Vou falar sobre ovnis e sobre aquela noite em que vi a luz no céu. Não me lembro de ver os étês. Isso não cheguei a ver. Vi só a luz. Se eu fosse para a Casa dos Segredos (cruzes credo que nunca iria, nem gosto nada de ver aquilo) mas se fosse, este seria o meu segredo.
Depois conto-vos a história. Primeiro, vou contá-la em voz alta à Dora.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O escritor João Tordo publicou no seu blogue uma carta ao pai e eu pensei que também eu podia escrever uma ao meu, mais ou menos comovente

Como já devem ter lido, o João, filho do Tordo, veio defender o pai das palavras menos bonitas que andaram a dizer do senhor. E como devem saber, o Fernando, pai do Tordo, decidiu no alto dos seus 65 anos emigrar para o Brasil, mais concretamente para o Recife, onde conta começar uma nova vida. E eu, que nada tenho contra quem emigra nem contra quem defenda o seu pai, também me vi na obrigação (vá, vontade) de escrever para o meu pai.

Sabes, João (isto agora sou eu a fingir que me dirijo a ele, ok? Como se o João fosse ler isto), o meu pai é um bocadinho mais novo que o teu, faz agora em Março 59 anos e muito provavelmente, no seu tempo devido, não terá uma reforma muito superior a 200 euros. Começou a trabalhar com 14 anos numa cidade que distava da aldeia onde vivia uns bons 30 quilómetros. Hoje a estrada nacional até tem bom asfalto e o Engº Sócrates deixou-nos uma espectacular auto-estrada que nos leva num tirinho ao Porto. Mas antes, quando o meu pai era miúdo, a estrada que havia era em terra batida. A única camioneta (há quem diga autocarro, mas eu gosto de lhe chamar camioneta porque tem mais a ver com a história e a altura em que se passa) partia de outra aldeia, motivo pelo qual ele tinha de andar todos os dias 10 quilómetros a pé. Coisa pouca.

Assim como o seu pai, também o meu dedicou a vida à música. Só não subiu aos palcos, nem lançou cd’s ou fez concertos pelo país. Nem tão pouco foi à televisão ou é conhecido como o seu. Mas dedicou a sua vida à música. Nem imagina como ele toca bem harmónica. De ouvido. Nunca frequentou qualquer aula de música nem tão pouco sabe ler pautas. Mas toca harmónica como ninguém. E os discos que ele ouviu? Ui, tantos. E andam lá por casa alguns do seu pai. Que o meu pai adora a música da tourada. E eu também, confesso. Não a tourada, mas a música.
Agora se ele tivesse sido artista, se tivesse vendido os cd’s que o seu pai vendeu e dado espetáculos como o seu deu, talvez não precisasse de fazer “biscates” durante todo o dia de sábado. E mais o domingo de manhã, que serve para ajudar uns amigos. E só não é o domingo à tarde porque a minha mãe lhe acena que não com a cabeça numa tentativa de ele perceber que domingo à tarde é dia de ir a casa da mãe. Como boa filha que é e seguidora dos rituais familiares, acha que o domingo à tarde é dia de descanso. Mas não falemos da minha mãe, que isso pode ficar para outra carta. Foquemo-nos no meu pai.

Numa coisa eu concordo com o João e deixo aqui o meu apoio: ninguém tem o direito de dizer mal, de chamar palavrões duros, de mandar as pessoas que amamos para outras partes que às vezes nem deste mundo são. Ninguém mesmo. Mas não ligue aos comentários do Facebook ou dos jornais. Eles valem o que valem, ou seja, nada!

Mas agora vem a parte em que se calhar nos vamos desentender e, mesmo eu não o conhecendo nem nunca ter falado consigo, vamos ficar sem falar um com o outro. Mas eu vou arriscar.
Pelo que sei, o seu pai, assim como o meu, ainda não está reformado pois não? Pois. Por isso não entendo a indignação de alguém reclamar receber 200 euros de reforma quando ainda nem reformado está. Adiante. Ele vai para o Recife (nunca lá fui, mas dizem que é lindo, com muito sol e calor e bons camarões na praia) e vai viver de quê? Essa parte não refere na sua carta. Vai viver de concertos em bares? Em Portugal também podia. As coisas em Portugal não estão fáceis, é verdade, mas tem visto as imagens do Brasil?

O meu pai nunca viajou. Tirando aqueles anos em que íamos de camioneta (muito andou ele de camioneta) a Vigo buscar bacalhau e caramelos. Ou então aquela vez que o levei a Barcelona e era ver o seu espanto, a sua alegria.
O meu pai trabalha desde os 14 anos, de segunda a domingo. Quando se reformar não terá uma grande reforma. Contudo, acha que o meu pai se queixa, ou que vai emigrar com a harmónica às costas, ou que acha que o seu país lhe está a virar as costas? Não. E eu, como filha, compreendo quando diz que está triste por ver o seu pai partir. Mas, espero que também compreenda o meu lado quando digo que fico feliz pelo meu ficar.

João, eu não tenho nada contra si e até tenho um livro seu lá em casa, que muito prazer me deu a ler. Mas acho que o seu pai, pessoa conhecida por todos nós, devia ter ido para o Recife sem dar muito alarido. É isso que acho. E a sua carta veio criar ainda mais alarido a este mundo blogosferiano (inventei agora).

Ontem, ao deitar-me, imaginei o meu pai dentro do avião, quando fomos a Barcelona. Bem-disposto, com um sorriso nos lábios. Mas ansioso por voltar para casa, para o país que dizem estar mal, mas que para ele está melhor do que nunca. Eu sei que não está. Mas deixo-o sonhar.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

É segunda-feira, está outra vez de chuva e eu dormi quase dez horas seguidas

Esta noite dormi quase 10 horas. 9 horas e meia para ser mais precisa. Às 21h30 já o meu marido não conseguiu obter de mim qualquer resposta ou som às perguntas que me fazia. Achou que o melhor mesmo era tirar-me os óculos da cara. Achou que o melhor mesmo era desligar o meu candeeiro e desejar-me uma boa noite. Achou que o melhor mesmo era deixar aqui a menina dormir, até porque ela se sentia (e sente) meia adoentada e toda a gente sabe que uma boa noite de sono cura toda e qualquer doença das bichezas).
Às 7h o despertador tocou. Mas não fosse eu já ter dormido nove horas e meia, achei que ainda podia ficar ali mais um bocadinho, só mais um bocadinho naqueles lençóis quentinhos quentinhos (não são polares, não senhora, nem de flanela. Nós usamos os verdadeiros lençóis brancos, aqueles de enxoval. Brancos, finos, de linho). E fiquei ali mais uns bons 45 minutos. Ouvia-se a chuva na janela. Ouvia-se o despertador. Depois, depois sim, levantei-me. Pequeno-almoço tomado, lanche preparado para os dois, banho quentinho, vestir, sair de casa e…e bem vinda sejas segunda-feira.
Esta semana, a semana 8, vai ser um tanto ou quanto preenchida. De segunda a sábado.
Exames, dentista, formações, teatro em Carlos Alberto, Teatro no Campo Alegre, a Catarina Beato no Norte Shopping e um workshop que tem tudo para ser espectacular dado pela querida Dora.
Por esses motivos e mais alguns, a bicheza não me pode atacar.
Vai daí já me enchi a manhã toda de chá quente (não, não é da Lipton. Esses senhores nem se dignaram a escrever). Vou continuar este método pela tarde. Há noite, volto a enfiar-me nos lençóis brancos de linho. E não, não vou voltar a dormir quase 10 horas seguidas, que uma dona de casa tem sempre muito a fazer à semana :)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Por favor S. Valentim, podes tomar conta deles por mim, podes? De todos eles, está bem? Obrigada.

Não, não vou falar do dia de S. Valentim. Não, não vou colocar dicas, prendas para ele e para ela e sítios tipo motéis para passarem a noite (passem mas é em casa que vão ver que é mais económico e romântico. Mas vocês é que sabem. Atenção que não me quero meter nas vossas vidas, estamos entendidos? Hmmm). E não, também não vou encher-vos de imagens de corações e lingerie sexy e outras coisas sexys que vi mas que não posso agora contar, não vá este blogue com um nome tão querido como é ser lido por miúdos. Aliás, se forem ler a história do famoso S. Valentim, vão perceber que foi decapitado neste preciso dia. Pois, hoje celebra-se a morte deste homem que antes ainda passou pela prisão e teve uma namorada cega que ficou curada quando se apaixonaram. E decapitação não é uma coisa muito bonita para se falar num dia que se quer romântico, pois não? Também acho.

Pasmem-se e interiorizem bem esta minha dica: eu sou daquelas que gosto dos outros dias, os normais. Gosto de oferecer quando me lembro. Mas não fiquem a pensar que não sou romântica. Sou e muito. Só não gosto dos restaurantes com cardápios mais caros que o normal, das flores mais caras que o normal, do oferecer só porque tem de se oferecer.
Mas, para vocês verem que até existe romantismo lá em casa, aqui vai uma pequena descrição de como será passada a nossa noite: faremos o jantar lá em casa, os dois (como o habitual); mesa posta e panela ao lume (na verdade, o arroz de marisco será feito na Bimby, mas achei que ficaria mais bonito um panela ao lume). Beberemos um bom vinho (como o habitual). Brindaremos à felicidade, nossa e da humanidade que temos o coração grande. Depois relaxaremos no sofá e veremos mais um episódio do Breaking Bad (como o habitual). Por isso, como podem constatar, será um dia como o habitual, ou seja, muito bom.

Sendo S. Valentim um santo, julgo estar no direito de lhe pedir umas coisas. Então vamos lá: querido S. Valentim, uma vez que zelas pelo amor e união, venho pedir-te que protejas sempre aqueles que amo. Todos, sem excepção, que eu gosto de muitas pessoas. Não vou dizer nomes, pois tu és santo e sabes tudo. Aquelas bem próximas, a começar pelo meu marido, meu irmão, meus pais, minha sogra e minha cunhada. Depois os amigos, todos aqueles que tu sabes que estão na minha vida. Dá-nos, a todos, muito amor; paciência (para aqueles dias em que ela quase se esgota) e compreensão. Por favor S. Valentim, podes tomar conta deles por mim, podes? De todos eles, está bem? Obrigada.

Nota 1: não vos quero estragar, de forma alguma, este dia com as minhas palavras. Vão lá encher os restaurantes que a nossa economia preciso de facturar. E peçam factura, sempre. Nunca se sabe se não nos sai um carrito.
Nota 2: também não quero que deixem de ir aos móteis nem de comprar lingerie sexy. Os homens apreciam estas coisas e, aqui só pra nós, também gostamos de nos sentir mais sexys de vez em quando.
Nota 3: só para informar que também pedi por vocês ao S. Valentim. Estão todos no meu coração.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Minha querida Lipton

Sei que andaste a dar chá como se não houvesse amanhã a toda a blogosfera e estratosfera. Sei que toda a gente anda a agradecer-te pela simpatia e generosidade e tudo o resto que tu bem sabes. Sei que gostam todas de beber chá, ele é chá de manhã, é chá ao almoço, é chá a toda a hora. E eu fiquei bem triste porque, sendo eu uma grande amante de chá, não recebi nada.
Todos os dias verifico a minha caixa de correio, e nada. E até quando não tenho chave, tento meter a mão forte, grande e gorda (saio ao meu pai que tem uma mão que até assusta) naquele minúsculo buraco onde são metidas as cartas, para ver se sinto alguma caixinha, algum envelope com um vale de compras, e nada. E aquilo dói. Chego a ficar com os nós dos dedos em ferida até o meu marido aparecer com a chave. Todos os dias subo do zero ao quarto andar numa tristeza que só vista.
Mas sabes, mais do que a dor nos dedos, é a dor no coração por me teres colocado de parte. Eu não sei se é bullying ou lá o que é, mas sinto-me rejeitada por alguém que admiro, aprecio, me conforta nos dias frios e me arrefece nos dias mais quentes do ano.
Eu sei que devo ter umas 10 visitas por dia. Eu sei disso. E que tenho apenas uma mão cheia de seguidores. Mas os meus seguidores valem ouro. A sério que valem.
Sê sincera: é por eu não morar na capital? Come on! Isto agora é tudo perto. Alfa pedular, intercidades, regional, auto-estradas que vão do nº 1 ao nº 49, nacionais que não estão nada más e têm monumentos lindos pelo meio e ainda tens a TAP, mas isso já é uma viagem mais cara e eu não te quero meter em grandes despesas.
Estou mesmo triste querida Lipton. Vou dar-te um tempo, para pensares bem no quanto me desapontaste.
Entretanto, vou ali beber um Twinings of London. Pois, London.

O emprego das nove às seis, ou como eu gosto de rotinas e horários

Para quem, como eu, tem um emprego das nove às seis, torna-se por vezes dificil escrever um texto ou pensar num texto para escrever. Por vezes até penso, mas depois não há tempo para o publicar, para o alimentar com palavras. Muitos não chegam a passar de um título ou tópicos. Porque há emails que têm mesmo de ter seguimento imediato. Há telefones a tocar. Há um chefe. Há um open space com mais 10 pessoas.
Não estou com isto a queixar-me. Nada disso. Gosto bastante do que faço, da minha rotina diária, do emprego das nove às seis. Gosto do chegar e tomar aquele primeiro café da manhã, o que custa 20 cêntimos; de ler e tratar sempre todos os emails com o profissionalismo que me é conhecido; de parar uns 15 minutos pela manhã para beber o meu chá acompanhado de bolachas ou às vezes uma fruta; de me perder nos favoritos e vos ler, a todos, e pensar que vocês escrevem coisas tão bonitas, e tiram fotografias tão interessantes. E eu adoro saber-vos bem. Apesar de não vos conhecer, fazem parte de mim e do meu dia-a-dia. E ler-vos faz-me feliz.
Entretanto chega a hora de almoço. Almoço numa cantina, não é giro? Vem a tarde, vêm mais emails, vêm mais umas leituras aos vossos blogues. Vêm as seis e vem um marido buscar-me. Juntos regressamos a casa e, se Deus quiser, amanhã será tudo igual. São os chamados dias da marmota, ou “Groundhog Days”. Para quem não sabe o que é, aconselho uma rápida leitura aqui, ou verem este filme maravilhoso.
Se eu gostava de ter um trabalho diferente? Às vezes. Só naqueles dias de chuva (têm sido todos, não é), de trânsito caótico, de segundas-feiras de pouca paciência. Do desejo de ficar por casa, enrolados na manta mais quentinha e cheirosa do mundo.
Depois passa. Na verdade eu gosto disto. Sou uma mulher de rotinas e horários. Chego por vezes a ser rígida demais e sofrer com isso. E talvez seja por isso que este emprego das nove às seis se encaixa na perfeição na minha pessoa.
Se eu tenho aspirações? Sim, tenho. Até considero acumular um possível negócio fora daqui. Negócio esse que ainda anda a ser estudado, analisado e sonhado. Mas que por enquanto continua a viver na noite, ao lado das muitas estrelas que pincelam o céu (não as vemos mas elas estão lá). Eu gostava que um dia ele visse a luz do sol. E ficasse iluminado com os raios de luz. E crescesse, como uma flor quando chega a Primavera.
Por enquanto continuarei por aqui, das nove às seis, e por aí em diante.