segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A GOLA MAIS FOFINHA E QUENTINHA DO MUNDO


É HOJE: TRINTA E QUATRO

Soneto de aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

PEQUENO PÓNEI, MEU PEQUENO PÓNEI

A catequese era sempre ao sábado de manhã. A catequista São e a catequista Gusta esperavam sempre por nós à porta daquela capela pequenina, com uma tília enorme mesmo em frente à porta principal, que fora plantada pelo meu avô há muitos anos. Nos poucos metros quadrados daquela capela, podíamos ouvir clara e cristalinamente a voz daquelas senhoras que tinham dedicado a vida a Deus, nunca casando, nunca tendo filhos, nunca passando de uma vida de dedicação extrema às pessoas, principalmente às pessoas da minha aldeia. E depois existiam as crianças, como eu, de catequismo na mão, a jogar às escondidinhas à volta da capela; a jogar ao “mata”; ao “lencinho vai na mão” e à macaca.
Na catequese, também apareciam duas meninas que vivam no Porto, mas uma vez que o pai era dali, fazia questão que a Joana e a Susana fossem educadas pela São e pela Gusta. E elas traziam sempre as mais recentes novidades das folhinhas de cheiro. Sabem aquelas folhinhas de papel que cheiravam bem? Pois, elas tinham muitas, e diferentes. E era com elas que as meninas da aldeia, como eu, fazíamos as nossas trocas.
Até aqui tudo bem. Eu adorava a catequese. Adorava as catequistas. Adora os temas do catequismo. Era muito interessada e participativa. Todos os sábados (segundo a São, todos mesmo) eu perguntava o nome dos Santos. E quando era para cantar, eu cantava bem alto. E quando era para ler, o meu braço estava sempre no ar. Mas…
Mas ao sábado de manhã dava o My Little Poney na televisão. E, em 1985, numa aldeia meio perdida no vale de uma serra com o nome de Flores, não havia vídeos. Ou via naquela hora, ou nunca mais via. E aqueles póneis lindos e tão coloridas davam as suas cavalgadas exactamente na hora que eu tinha de dar à sola para a catequese. Chorava, dizia que não queria ir, teimava que queria ficar em casa. Mas a minha mãe nunca hesitou nem nunca cedeu a estas choraminguices. Dizia sempre, numa voz segura e imperativa: “Já à minha frente”. E eu respeitava, claro que respeitava. Catequismo na mão, lágrimas limpas com a ponta da camisola e voz já pronta e afinada para chamar pela amiga, a Rosinha.
E depois passava tudo. E esquecia os póneis e a televisão. E o que eu queria mesmo era saber o nome dos Santos e perceber as histórias de Jerusalém. E assustar-me sempre que a catequista Gusta falava do Heródes. E ficar com os olhitos em lágrimas quando a catequista São falava daquele quadro, pendurado naquela parede de cal já mais amarela que branca , e que mostrava Jesus a ser pregado na cruz.
Depois da catequese, ainda íamos visitar os velhinhos e os doentes da aldeia. E chegava a casa à hora de almoço.
No Inverno, aquecia as mãos na lareira que a minha mãe acendia bem pela manhãzinha. No Verão, almoçávamos debaixo de um grande castanheiro, com o som dos grilos como música de fundo.

Agora que penso nesses sábados de manhã, para além de os sentir de uma forma bastante nostálgica, também penso que ainda bem que a minha mãe me obrigou a ir “à frente dela”.
Porque em vez de ficar em frente à televisão, pude eu própria construir as minhas histórias. Pude brincar, sentir, aprender, partilhar, ajudar e, sobretudo, ser uma verdadeira criança.

O sábado continua a ser o meu dia preferido. E é já amanhã!

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

HELLO BROTHER! I AM WATCHING YOU.

- Ele vai ser loirinho, e de pele branca. Que bebé mais lindo e rechonchudo.
Lembro-me das palavras da minha avó Laura quando viu pela primeira vez o meu irmão.
Eu tinha 4 anos e dormi em casa dela nessa noite de Setembro. Eu gostava muito de dormir em casa dela, porque admirava todos os tios e tias que lá viviam. Eram 7. A minha mãe fazia o nº 8.
A minha avó vestiu-me um vestido branco, com uns laços cor de rosa a cair da cintura. Penteou-me os caracóis, tão difíceis que eram de pentear. Calçou-me aqueles sapatos cor de terra e, estendendo-me a sua mão quente e macia, disse:
- Vamos ver o teu irmão.
Fomos à maternidade. Nunca tinha entrado num sítio daqueles. Era tudo tão branco e com um cheiro estranho.
Percorremos um longo corredor. A minha mão pequenina e de dedos bem gordinhos, perdia-se dentro da dela. Sentia que se a largasse me perdia. E por isso, nunca a larguei.
Entramos no quarto. Consigo lembrar-me da felicidade da minha mãe e do berço ao lado dela. Consigo lembrar-me que larguei a mão quente e macia da minha avó e corri para o berço. Ali dentro, com a minha mãe, o meu pai e o meu irmão, eu já não me sentia perdida. Consigo lembrar-me que me pus em picos de pés para o conseguir ver. E vi. E era loirinho e de pele branca e rechonchudo. Era isso e muito mais. Era o meu irmão.
Eu tinha 4 anos. Mas lembro-me.
- Não é nada parecido com a irmã. Ela era tão morena e tinha o cabelo tão preto – comparava a minha avó olhando para um e para outro.
Apesar disso, hoje até consideram que somos parecidos.
O meu cabelo deixou de ser tão preto e o dele tão loiro.
Mas continuo a gostar de o ver, muito, mesmo que às vezes não consiga demonstrar tudo o que sinto.

A par desta, tenho apenas mais uma recordação dos meus 4 anos, que foi quando caí e parti o nariz todo, ficando com uma marca para sempre. Bastante engraçada, até.
Mas isso falarei noutro dia!

[AS COZINHAS QUEREM-SE BRANCAS] 1







inspiração no sítio do costume


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

[O MELHOR DO MEU DIA] PEDRO ARROJA AO VIVO E A CORES

Gosto deste final de tarde que chega tão devagarinho e dos tons que o céu ganha no horizonte.
Gosto do frio que faz lembrar o Natal, o nosso primeiro Natal juntos.
Gosto das actividades que escolhemos para preencher o nosso fim de dia.
Hoje seguimos directos para a apresentação do livro do Pedro Arroja, na FNAC do Norte Shopping.
E tenho para mim, que este vai ser o melhor do meu dia.

SER CRIANÇA A VIDA TODA...COM SOUTIEN!


Eu tinha medo de crescer. Tinha medo de ser mulher e desejava ser criança a vida toda. Tinha vergonha quando falavam em soutiens e outras conversas que as mulheres já adultas tinham, e eu, cheia de vergonha, ouvia.
Eu gostava era de brincar. De inventar jogos todos os dias. De andar de bicicleta com o meu irmão e fazer saltos (na altura eu pensava que eram grandes saltos, mas na verdade eram saltinhos, assim muito pequeninos, sabem?). Eu queria era poder ir para a escola, chegar a casa e fazer os trabalhos de casa, e depois gritar “Oh Rosinha, anda brincar comigo!”. E lá íamos, as duas com enormes cabelos que faziam enormes tranças. Ía lanchar, dizer à minha mãe onde estavamos naquela tarde e depois só regressava a casa para jantar. Às vezes era necessário a minha mãe chamar pela pequena rebelde várias vezes. Entretinha-se muito facilmente nas brincadeiras e esquecia o horário.
Um dia, como eu já previa há algum tempo, veio a história do soutien. Ou porque a menina já não é nenhuma menina. Ou porque parece mal andar a correr assim. Ou porque…
Envergonhada, muito envergonhada, lá o coloquei. Escusado será dizer que nos primeiros dias queria era tirar aquilo. Mas fui-me habituando.
E com o soutien, veio também um sentimento de responsabilidade maior (eu sabia que a partir daquele momento eu deixaria de ser tão criança).
Tinha 13 anos. Tarde, eu sei. Mas ainda bem. Porque até essa idade eu fui a criança mais feliz, mais aventureira, mais imaginativa, mais conversadora, muitas vezes maria rapaz, que consegui.
Foi como se tivesse começado um novo ciclo. O ciclo de mulherzinha.

Hoje continuo a ser a mesma mulher feliz, aventureira, imaginativa, boa conversadora, mas não tanto maria rapaz. Continuo a ter receios de todas as novas etapas que ainda vou percorrer ao longo da minha vida. Mas sei, porque sei e porque sinto, que serão todas etapas boas. Algumas já as comecei. Outras irão um dia começar. E espero estar sempre à altura de todas elas. Porque, como dizia a minha mãe quando eu tinha 13 anos e coloquei um soutien: “Tu vê lá, agora porta-te bem. Já és uma mulherzinha”.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

[O MELHOR DO MEU DIA] FOI APENAS BEM NO FINAL


O dia não tinha sido dos melhores. Pela manhã, a notícia do falecimento de uma avó de uma amiga ( já era velhinha, a avó, mas, parece que mesmo já contando, nunca contamos, não é?); trabalho mais que muito com alguns desentendimentos pelo meio, que me tiraram do sério durante algum tempo, e sem sequer ter tempo para contar até 10, ou 20, ou...Portanto, apesar do sol lindo que brilhava e entrava na minha janela, dentro do gabinete a coisa estava mais para o cinzenta, a chutar para o cinza escuro. Até que...
Até que o final do dia chegou e com ele o nosso regresso a casa. Até que falamos sobre o nosso dia e contei o que me preocupava. Até que ouvi atentamente as tuas palavras sempre sábias, carregadas de amor mas também de ensinamento. Até que o nosso Portugal marcou, e voltou a marcar e os gritos (baixinhos, que isto não é a aldeia, não senhora, onde o meu pai coloca música a tocar lá em casa que mais parece dia de festa na terra), os gritos, dizia eu, e a alegria do apuramento para o mundial conseguiram fazer do dia que não tinha sido dos melhores no melhor do meu dia. 
E julgo que era disto que a Catarina e a Ana falavam e queriam quando decidiram começar "este projecto". Escolher o melhor do nosso dia e fazer as pazes com o que correu menos mal.
Não posso dizer que tenha feito as pazes com tudo o que correu mal, mas estou a tentar caminhar para lá, num percurso que se avizinha ainda algo sinuoso mas com poucas curvas!
Tenham uma boa noite.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

E PORQUE FAZ HOJE MEIO ANO QUE DISSEMOS O SIM PARA TODA A VIDA

O Casamento é a Mais Rica Aventura Humana

Meu caro leitor!
Se não tens tempo nem oportunidade para consagrar uma dezena de anos da tua vida numa viagem à volta do mundo para observar tudo o que um circunavegador pode aprender; se te falta, por não teres estudado por muito tempo as línguas estrangeiras, os dons e os meios de te iniciar nas mentalidades diversas dos povos que se revelam aos cientistas; se não pensas em descobrir um novo sistema astronómico que suprima o de Copérnico, bem como o de Ptolomeu - então, casa-te; e mesmo que tenhas tempo para viajar, dons para os estudos e a esperança de fazer descobertas, casa-te do mesmo modo. Tu não te arrependerás, ainda que isso te impeça de conheceres todo o globo terrestre, de te exprimires em muitas línguas e de compreenderes o espaço celeste; pois o casamento é e continuará a ser a viagem da descoberta mais importante que o homem pode empreender; qualquer outro conhecimento da vida, comparado ao de um homem casado, é superficial, pois ele e só ele penetrou verdadeiramente na existência.

Emmanuel Kant, in "Considerações sobre o Casamento em Resposta a Objecções"







domingo, 17 de novembro de 2013

[O MELHOR DO MEU DIA] OS ALMOÇOS NA ALDEIA

Em dias de sol, como o de hoje, ouço esta música. Conduzimos até à aldeia para o almoço de domingo. Família toda reunida em volta da mesa. Travessa de carne saída do forno a lenha da minha mãe. Saborosa. O pão sempre bom do Sr. Manuel, o padeiro, que ainda entrega o pão pelas portas. Castanhas, muitas castanhas, assadas e quentinhas. Vozes a falar todas ao mesmo tempo, como se todos tivessemos tanto para contar. Gargalhadas, confidências, preocupações de pais pelos filhos, pela filha que saiu dali. Folhas que não param de abandonar as árvores, quase despidas. Pai a pedir fotos, em todos os sítios e junto a todas as árvores. "Estás com a roupa de trabalho", alerta-lhe a minha mãe. Mas ele não se importa e "exibe-se" para a máquina como se tivesse com o fraque mais luxuoso do mundo. Mãe numa correria a encher-nos a mala do carro. Frutas, legumes, carne, ovos. "É tudo daqui, tudo biológico", diz ela orgulhosa e de sorriso na cara. 
O sossego do campo ainda é o que era. A felicidade de quem lá vive também. Mas, sobretudo, a felicidade de quem lá vive porque quer lá viver e em mais parte nenhuma do mundo.